O século XXI descobriu a importância da linguagem como condição e meio de produção de sujeitos, relações de poder, formas de ideologia e modalidades de desejo. Pela linguagem nos definimos e nos constituímos. Ao tomar a linguagem como figura maior da racionalidade e das trocas sociais, fomos levados a uma suspeita permanente sobre nossa apreensão da realidade. Esta inquietude e tensão entre o que é o real e a linguagem tornou-se questão fundamental na obra do psicanalista Jacques Lacan e é esse o tema de Christian Dunker neste programa.
"A gente quer dizer uma coisa, acaba dizendo outra. A gente começa uma frase, muda o pensamento no meio do caminho. A gente queria dizer algo e o outro entende algo completamente diferente. E recai sobre isso uma certa expectativa. Uma teoria geral de que se a gente se entendesse, se a gente reduzisse o ruído da comunicação, se a gente conseguisse usar a linguagem apropriadamente (...) muito do nosso conflito seria apaziguado. Bom, Lacan vai começar a sua revolução, a sua reinvenção da psicanálise, mostrando que isso não é bem verdade. (...) Uma grande virada na psicanálise começa com Lacan, quando ele diz 'Olha, o lugar do inconsciente é o lugar da linguagem'. (...) O inconsciente está aqui, não está num outro mundo. (...) A relação que a gente tem com a linguagem está baseada no que a pouco experimentamos, que é o equívoco. Que é a limitação de nossos modos expressivos."
(00:03:05 do vídeo e 00:01:41 do áudio)
"O consciente se estrutura como uma linguagem. Porque o inconsciente aparece ali onde a minha própria linguagem se mostra estranha. Ali no sonho, ali no ato falho, ali naquela brincadeira. Ali onde há um certo descompasso, o que parece? Um estranho que me habita. Um estranho que em geral eu nego. Não era isso que eu queria dizer, que eu intencionava (...) Nesse estranho fala uma verdade. Nesse estranho há uma espécie de revelação. Ele pede por ser escutado. E se a gente não escuta esse estranho, ele cobra a sua parte. Ele começa a falar não mais em sonhos, em pequenos deslizes, mas em sintomas, em formas agudas de sofrimento, em impasses que dominam e que limitam a nossa vida."
(00:08:20 do áudio)
"O primeiro nível de alienação é esse no qual a nossa própria linguagem. (...) Num segundo tempo, a linguagem vai operar no interior daquilo que caracterizaria a essência do homem. (...) Para Lacan é uma essência feita por uma falta. Uma essência que é dada pelo que nós não temos. O nome disso que nós não temos, e que ao mesmo tempo nos governa, é desejo. O desejo humano é indissociável da linguagem. (...) Não é um desejo de objetos. O desejo humano, desejo de possir o desejo do outro. Loucura incurável. O que eu quero é que o outro queira. Que o outro queria o que? Que ele queira o que eu quero."
(00:09:38 do áudio)
Completo em áudio aqui:
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